Karma: o que é, como funciona e como resolver karma negativo

Poucas palavras viajaram tão longe e se transformaram tanto ao longo do caminho como karma. Nasceu num contexto sagrado, nos textos védicos da Índia antiga, com um significado preciso e complexo. Atravessou séculos, oceanos e tradições espirituais diversas. Chegou ao Ocidente no século XIX pela mão da Sociedade Teosófica. E hoje está em todo o lado: na fala quotidiana, nas redes sociais, nos filmes, nas conversas de café. "Isso é karma" diz-se de uma multa inesperada, de um encontro improvável ou de uma injustiça que finalmente se resolveu.

Mas o que é, de facto, o karma? E mais importante: se existe karma negativo acumulado, pode ser trabalhado, transformado, resolvido?

Estas duas perguntas merecem respostas honestas que vão além do senso comum. Porque o karma, quando compreendido na sua profundidade real, não é um mecanismo de punição cósmica, não é a confirmação de que "cada um tem o que merece" e não é uma fatalidade. É algo consideravelmente mais complexo, mais justo e mais útil do que qualquer dessas reduções sugere.

A origem: o que o karma significa nas tradições onde nasceu

A palavra karma tem origem no sânscrito, a antiga língua sagrada da Índia, e a sua raiz, kr, significa "fazer", "agir". Na sua forma mais literal e original, karma significa simplesmente "ação". Não a ação enquanto evento externo, mas a ação enquanto força que gera efeito, enquanto causa que produz consequência.

Os princípios do karma desenvolveram-se a partir dos Upanishads védicos, textos filosóficos e espirituais compostos entre aproximadamente 800 e 200 a.C., que constituem o núcleo do pensamento filosófico hindu. Nestes textos, o karma é inseparável do conceito de dharma, a lei universal, o caminho recto, a ordem que sustenta o universo. Uma ação alinhada com o dharma gera karma positivo; uma ação que o viola gera karma negativo.

No hinduísmo, o karma está diretamente ligado ao Samsara, o ciclo de renascimentos: vida, morte e renascimento. As ações acumuladas ao longo de várias vidas determinam as condições da encarnação seguinte. Não como punição ou recompensa arbitrária de uma entidade exterior, mas como o resultado natural e inevitável da lei de causa e efeito aplicada ao plano espiritual.

No budismo, a abordagem é ligeiramente diferente. Buda, que viveu há cerca de 2.500 anos no que é hoje o Nepal, integrou o conceito de karma na sua visão da realidade, mas com uma ênfase particular na intenção. Esta distinção é profunda: no hinduísmo clássico, o karma tem muito a ver com o cumprimento ou a violação do dharma através de ações externas. No budismo, a fonte do karma é a intenção que precede a ação. Uma ação aparentemente boa feita com intenção manipuladora gera karma diferente da mesma ação feita com genuína compaixão. Para o budismo, o karma não nasce apenas da ação, mas da intenção que a orienta. Uma ação feita com intenção genuinamente boa gera karma diferente da mesma ação feita com intenção egoísta ou danosa. Como explicou o monge budista Bhikkhu Nandisena à BBC, a lei do karma pode ser entendida "do ponto de vista da responsabilidade nas nossas próprias ações".

O jainismo, outra tradição indiana, acrescenta outra camada: no jainismo, o karma é visto como uma substância física subtil que adere à alma como resultado de ações, pensamentos e palavras, e que precisa de ser purificada através de práticas de austeridade e de não-violência.

No Ocidente, o karma chegou principalmente pela via da Sociedade Teosófica, fundada por Helena Blavatsky em 1875, que traduziu e popularizou os ensinamentos das tradições orientais para um público europeu e americano. Esta tradução inevitavelmente simplificou alguns aspectos e enfatizou outros, criando a versão do karma que a maioria das pessoas ocidentais conhece, que é simultaneamente uma aproximação útil e uma redução considerável da complexidade original.

Como o karma realmente funciona

A versão popular do karma ocidental resume-o frequentemente a: "faz o bem, recebe bem; faz o mal, recebe mal". Esta síntese capta algo real mas perde a maior parte da profundidade.

O karma não é um sistema de recompensas e punições gerido por uma instância superior. É um princípio de correspondência: as ações, pensamentos e intenções criam padrões energéticos que se manifestam como condições de vida, tanto nesta existência como nas seguintes, segundo as tradições que incluem a reencarnação. É uma forma de causa e efeito que opera não apenas no plano físico e social, mas no plano espiritual e energético.

Há um aspecto do karma que é frequentemente ignorado na cultura popular ocidental: o karma não é apenas negativo. Cada ação, pensamento e intenção gera karma, seja positivo ou negativo. A própria palavra, na sua origem, é neutra: karma é simplesmente ação, a acumulação das suas consequências. A divisão em positivo e negativo é uma aplicação moral deste princípio neutro à esfera do comportamento humano. As dificuldades de uma vida podem ser o resultado de karma negativo acumulado, mas as oportunidades, os talentos naturais, as relações profundas e as circunstâncias favoráveis são karma positivo manifestado. Uma pessoa com muito karma positivo não é uma pessoa que não sofreu: é uma pessoa que, ao longo das suas encarnações, acumulou mais ações alinhadas do que desalinhadas.

A tradição espiritual distingue também entre diferentes tipos de karma. O karma individual é o que cada pessoa acumula através das suas próprias ações. O karma familiar ou ancestral é o padrão que se herda da linhagem, dos comportamentos e dos erros não resolvidos das gerações anteriores. O karma coletivo ou social é aquele que um grupo partilha, seja uma comunidade, uma nação ou a humanidade como um todo. Esta distinção é relevante porque nem todo o sofrimento humano é explicável apenas pelo karma individual.

Há uma dimensão do karma que é particularmente importante para quem o aborda de uma perspetiva espiritual prática: o karma não é apenas passado. É também presente. Cada momento de cada dia, as escolhas que se fazem, a forma como se trata quem está à volta, a qualidade da intenção que orienta as decisões, tudo isso está a gerar karma agora. A lei kármica é uma lei de criação constante, não apenas de retribuição de um passado fixo.

Karma e vidas passadas: a ligação que explica os padrões inexplicáveis

Uma das dimensões mais difíceis de apreender do karma, especialmente para quem não cresceu em tradições que incluem a reencarnação, é a sua ligação com vidas passadas.

As tradições orientais, e o espiritismo no contexto ocidental, partilham a visão de que a alma encarna múltiplas vezes em corpos diferentes, trazendo consigo o registo de todas as ações e intenções das encarnações anteriores. Este registo acumulado ao longo de várias vidas é, segundo estas tradições, o que explica muitas das circunstâncias que aparecem à nascença: o ambiente familiar, as capacidades naturais, os desafios específicos que a vida vai trazer e as relações que se vão estabelecer. Este registo, por vezes chamado de registos akásicos na tradição esotérica ocidental, é o que orienta as condições da vida presente: os desafios específicos que são trazidos, as capacidades naturais que se manifestam desde cedo, as relações que se estabelecem e que têm uma qualidade de reconhecimento imediato.

Esta perspetiva oferece uma resposta plausível e coerente, dentro do seu próprio sistema de compreensão, para algumas das assimetrias mais difíceis de aceitar da existência humana: porque razão algumas pessoas nascem em circunstâncias extraordinariamente difíceis, porque algumas vidas são marcadas por padrões de sofrimento que resistem a qualquer esforço de mudança, porque algumas relações têm uma intensidade que parece exceder qualquer explicação biográfica.

Segundo este enquadramento, um padrão que se repete de vida em vida não é uma maldição: é uma lição que a alma acordou trabalhar. Uma dificuldade recorrente numa área específica, seja nas relações, nas finanças ou na saúde, pode ser o sinal de um karma que ainda não foi resolvido, de uma situação que pede uma resposta diferente da que foi dada em todas as encarnações anteriores.

Esta visão não é determinista. Não diz que o destino está fixado. Diz que há tendências e padrões que emergem do karma acumulado, mas que a consciência, a intenção e a escolha têm sempre o poder de criar karma novo e de alterar os padrões existentes. O karma é dinâmico, não estático.

O karma negativo: como reconhecer os seus sinais

O karma negativo manifesta-se de formas muito diversas, e reconhecê-lo não é um exercício de auto-culpabilização. É um ato de honestidade espiritual.

Os sinais mais consistentes incluem padrões de vida que se repetem com uma regularidade que desafia a explicação pela experiência desta vida. Relações que seguem sempre o mesmo arco: atração intensa, conflito, abandono. Dificuldades financeiras que persistem independentemente do esforço e da estratégia. Bloqueios em áreas específicas onde há talento evidente mas algo que impede a manifestação plena. Doenças recorrentes ou crónicas sem explicação física clara. Uma sensação persistente de não pertencer, de estar fora do lugar, ou de que há uma missão ou propósito que se sente sem conseguir identificar, pode também ser um sinal de karma por resolver que está a bloquear o alinhamento com o dharma desta encarnação.

Há também sinais emocionais: medos irracionais que não têm origem identificável na vida presente, sentimentos de culpa que persistem sem causa aparente, raivas ou ressentimentos que parecem desproporcionados face às situações que os activam.

Nenhum destes sinais é prova de karma negativo. São convites a examinar com atenção o que pode estar a contribuir para os padrões em questão. Antes de qualquer conclusão espiritual, é sempre prudente descartar causas psicológicas, familiares ou circunstanciais que expliquem os padrões sem necessidade de invocar o karma. O trabalho kármico é mais eficaz quando feito em conjunto com outras formas de compreensão e de cuidado, não em substituição delas.

Como o karma negativo se transforma

Esta é provavelmente a parte mais prática e mais importante de todo o artigo. Porque se o karma é uma lei e não uma sentença, a questão central é: o que é possível fazer?

A resposta das tradições espirituais que trabalham com o conceito de karma é consistente: o karma negativo transforma-se através de ações conscientes, de intenções alinhadas e de um trabalho deliberado de reconhecimento e de integração.

O reconhecimento é o primeiro passo. Perceber que há um padrão, perceber que esse padrão pode ter uma raiz que vai além desta vida, e aceitar a responsabilidade pelo que está dentro do próprio controlo. Não como culpa, que paralisa, mas como responsabilidade, que liberta. A diferença entre culpa e responsabilidade é precisamente esta: a culpa olha para trás e fica presa; a responsabilidade olha para a frente e age.

O serviço, em sentido lato, é uma das ferramentas mais poderosas de transformação kármica. Agir de formas que contribuem genuinamente para o bem dos outros, sem expectativa de retribuição, cria karma positivo que começa a equilibrar o negativo acumulado. Não é necessário ser excepcional para fazer isto: pequenas ações quotidianas de bondade genuína, de atenção ao sofrimento alheio, de honestidade nas relações, têm um peso kármico real.

O perdão, tanto de si mesmo como dos outros, é outro elemento central. Muitas tradições espirituais associam o ressentimento e a incapacidade de perdoar a um dos mecanismos que mantém o karma negativo activo. Não porque perdoar seja fácil ou imediato, mas porque enquanto se carrega raiva ou ressentimento de alguém, continua a existir uma ligação kármica com essa pessoa que alimenta os padrões que se quer transformar.

O trabalho com a manifestação e a intenção consciente é igualmente relevante neste contexto. O karma não é apenas sobre o que se faz: é também sobre o que se pensa e o que se intenciona. Padrões de pensamento habituais, crenças profundas sobre o que se merece ou não merece, o tom da voz interior, tudo isso tem um peso energético que contribui para o karma que se está a criar agora.

Limpeza kármica: quando o trabalho espiritual complementa o pessoal

Para além do trabalho pessoal quotidiano, há formas de limpeza kármica que trabalham o karma num nível mais profundo, especialmente quando os padrões têm raízes em vidas passadas ou em karma familiar que vai além do que o esforço consciente desta vida pode alcançar. O trabalho com as vidas passadas, seja através de regressão, de meditação guiada ou de análise astrológica kármica, pode revelar as raízes de padrões que resistem a todas as abordagens desta vida, criando uma compreensão que por si só tem um poder transformador.

A limpeza kármica, como prática espiritual, consiste num trabalho intencional de identificação e de dissolução das estruturas energéticas que sustentam o karma negativo. Pode incluir meditação guiada orientada para a identificação de padrões kármicos, trabalho com cristais e elementos que auxiliam a transmutação energética, rituais simbólicos de intenção e de libertação, e o trabalho com terapeutas especializados que têm a capacidade de identificar onde o karma está mais activo no campo energético da pessoa. Esta última modalidade, o trabalho com um especialista que tem sensibilidade e formação para abordar a dimensão kármica, é especialmente relevante quando os padrões são muito antigos, muito profundos ou resistem a todas as abordagens autónomas. A presença de um olhar exterior, treinado para reconhecer o que a pessoa que está dentro do padrão não consegue ver, é um dos maiores valores de uma consulta especializada. As abordagens incluem também a análise astrológica kármica, a leitura de mapas natais com uma perspetiva da evolução da alma, e as técnicas de regressão a vidas passadas, que permitem aceder à raiz de padrões que esta vida não criou mas que continua a expressar.

A limpeza espiritual é um complemento natural à limpeza kármica: enquanto a limpeza kármica trabalha os padrões de causa e efeito espiritual, a limpeza espiritual trabalha as energias densas do campo áurico que esses padrões frequentemente geram. Os dois trabalhos juntos têm uma eficácia que nenhum dos dois teria de forma isolada.

O serviço de limpeza de karma disponível na plataforma aborda especificamente esta dimensão, com um trabalho orientado para identificar e trabalhar os padrões kármicos mais activos, com foco na transformação e não apenas na limpeza pontual. É um trabalho que beneficia de ser feito com a orientação de um especialista com formação e sensibilidade para este território específico.

Para quem quer dar o primeiro passo, perceber como funciona uma consulta e o que esperar, o guia sobre como funciona uma consulta oferece uma orientação prática antes de avançar. E para quem quer explorar a dimensão mais ampla da espiritualidade e do crescimento interior de que o trabalho kármico faz parte, o artigo sobre o que é a espiritualidade e como cultivá-la oferece um contexto mais vasto.

Karma e dharma: a relação que equilibra tudo

Falar de karma sem mencionar o dharma é contar metade da história. Nas tradições onde o karma nasceu, os dois conceitos são inseparáveis.

O dharma, na sua definição mais simples, é o caminho correto, a lei universal, o propósito específico de cada ser. Se o karma é a lei de causa e efeito que registra as ações passadas, o dharma é a orientação para as ações presentes e futuras: o que é que esta alma, nesta vida, veio trabalhar, aprender e oferecer. A tradição budista usa uma imagem que capta bem esta relação: o karma é como o terreno onde se nasce, cheio das sementes do passado; o dharma é a forma como se cultiva esse terreno, o que se escolhe plantar e como se cuida do que cresce. O terreno condiciona as possibilidades, mas o cultivo determina o que floresce.

Viver em alinhamento com o dharma é, segundo a tradição, a forma mais poderosa de transformar o karma: não porque apague o passado, mas porque cria karma novo de uma qualidade que começa a compensar e a integrar o que foi acumulado. Uma pessoa que encontra e vive o seu propósito genuíno, que age a partir de valores autênticos e que contribui com o que tem de único para oferecer, está a criar karma muito diferente de uma pessoa que age por medo, por ego ou por conformismo.

Esta ligação entre karma e dharma é também o que distingue uma vida espiritualmente consciente de uma vida simplesmente bem-intencionada. Não basta querer fazer o bem em sentido geral: é preciso compreender qual é o bem específico que esta alma, com esta história e estes dons, tem para oferecer. É um trabalho de intuição e de discernimento tanto quanto de boa vontade.

Os tipos de karma: individual, familiar e coletivo

Quando se fala de karma, a tendência é pensar exclusivamente no karma individual, aquele que cada pessoa acumula ao longo das suas encarnações. Mas as tradições espirituais que trabalham com este conceito reconhecem pelo menos dois outros tipos que são igualmente relevantes para perceber os padrões da vida.

O karma familiar, ou ancestral, é o padrão que se herda da linhagem. Comportamentos, medos, formas de lidar com o dinheiro, padrões relacionais, traumas não resolvidos que foram passados de geração em geração, não necessariamente de forma consciente, mas através de um campo energético familiar que cada membro da família herda ao nascer nela. Quando se olha para uma família e se reconhece que o alcoolismo, a violência, a dificuldade com dinheiro ou o abandono se repetem de geração em geração, há muito provavelmente um karma familiar em jogo que nenhum dos membros individualmente criou, mas que cada um tem a oportunidade de ajudar a transformar.

Este karma familiar é simultaneamente um fardo e uma oportunidade. O fardo é que se herda padrões que não se escolheu. A oportunidade é que, ao tomar consciência desses padrões e ao trabalhar a sua transformação, não se resolve apenas o próprio karma: resolve-se algo que beneficia toda a linhagem, incluindo as gerações que virão.

O karma coletivo, o terceiro tipo, é o mais amplo e o mais difícil de abordar individualmente. É o karma de um grupo, seja uma comunidade, uma nação ou a humanidade como um todo. As grandes catástrofes históricas, as guerras, as pandemias, as crises coletivas, são frequentemente lidas, no enquadramento kármico, como manifestações de karma coletivo: padrões de comportamento, de injustiça, de desequilíbrio acumulados ao longo de gerações que chegam a um ponto de resolução forçada.

Perceber a diferença entre estes três tipos de karma não é apenas um exercício intelectual. Tem consequências práticas: quando se identifica um padrão como karma familiar em vez de karma individual, a abordagem de transformação é diferente. Trabalhar o karma ancestral pode exigir, por exemplo, formas de cura que incluam a linhagem e não apenas o indivíduo, como as constelações familiares ou outros métodos de trabalho sistémico. É um trabalho que frequentemente produz resultados que se sentem não apenas na pessoa que o faz, mas nos filhos, nos irmãos, ou mesmo em pais que estavam presos em padrões que ninguém conseguia mudar. Isto porque o karma familiar é um campo partilhado, e o que uma pessoa transforma dentro desse campo tem ressonância em todo o sistema.

O karma nas relações: por que certas pessoas entram na nossa vida

Uma das manifestações do karma que mais desperta curiosidade é o karma relacional. A experiência de encontrar alguém pela primeira vez e sentir que já se conhecem, de ter uma ligação imediata e intensa com uma pessoa que se acabou de conhecer, ou de ter uma relação com alguém marcada por uma intensidade que parece ir além do que a história desta vida explica, é frequentemente interpretada, no enquadramento kármico, como a manifestação de uma ligação que vem de encarnações anteriores.

As chamadas relações kármicas são aquelas em que há uma dívida ou um acordo espiritual por resolver. Não necessariamente no sentido de dívida financeira, mas no sentido de que há algo entre as duas almas que ainda não ficou completo. Pode ser amor que não teve espaço para se expressar, pode ser um conflito que não chegou a uma resolução justa, pode ser um aprendizado que ainda está em curso.

Estas relações tendem a ser intensas, muitas vezes difíceis, e a ter uma qualidade de inevitabilidade que é difícil de ignorar. A intensidade é precisamente o sinal de que há muito por resolver. E o que as tradições espirituais ensinam sobre estas relações é que a forma de resolver o karma que existe nelas não é fugir mas enfrentar: ver o que a relação está a pedir que seja transformado, fazer o trabalho de consciência e de crescimento que a ligação convida, e criar um desfecho diferente do que existiu nas encarnações anteriores.

Há também relações de apoio kármico: pessoas que entram na vida em momentos precisos para oferecer exatamente o que é necessário, que têm uma qualidade de presença que parece transcender a coincidência. Estas relações são o resultado de acordos espirituais diferentes, não de dívidas mas de compromissos de apoio mútuo entre almas que percorreram parte do caminho juntas.

Reconhecer o caráter kármico de uma relação não é uma razão para permanecer nela se for destrutiva, nem para idealizá-la se for difícil. É uma forma de compreender com mais profundidade o que está em jogo e o que é possível criar dentro desse contexto. O karma relacional, quando reconhecido, oferece uma perspetiva que reduz o sofrimento: em vez de se perguntar 'porque é que esta pessoa assim age', a pergunta passa a ser 'o que é que esta relação está a convidar a resolver e a transformar'. A mudança de perspetiva não dissolve a dificuldade, mas transforma a relação com ela.

A diferença entre karma e fatalismo

Uma das confusões mais prejudiciais que existe em torno do karma é a sua equiparação ao fatalismo: a crença de que o que acontece está predeterminado e que portanto não há nada a fazer exceto aceitar.

Esta confusão nasce de uma leitura incompleta. O karma explica o porquê das condições de partida de uma vida, mas não determina as escolhas que se fazem dentro dessas condições. É a diferença entre dizer "nasci nesta família por razões kármicas" e "estou preso a esta família para sempre". A primeira afirmação pode ser verdadeira dentro do enquadramento kármico; a segunda não tem nada de verdade kármica.

O conceito de moksha, no hinduísmo, e de nirvana, no budismo, são precisamente os estados de libertação do karma: o ponto em que a alma, através de um trabalho de evolução suficientemente profundo, transcende o ciclo de causa e efeito e atinge uma liberdade que vai além de qualquer karma positivo ou negativo. A existência deste objetivo nas tradições que criaram o karma mostra inequivocamente que o karma não é uma prisão permanente: é um processo de aprendizagem com um fim possível. Mesmo quem não adopta uma perspetiva religiosa pode encontrar nesta ideia algo de valioso: a noção de que cada ação e cada intenção têm consequências reais, e de que a consciência dessas consequências é o fundamento de uma vida mais alinhada e mais responsável.

No contexto prático da vida quotidiana, isto significa que o karma é um ponto de partida, não um destino. Nasce-se com certas tendências, certos desafios, certas capacidades que têm raízes kármicas. O que se faz com esse ponto de partida depende da consciência, da escolha e do esforço de cada encarnação. A vida espiritual consciente é, em grande medida, o trabalho de transformar os padrões kármicos através de escolhas que criam karma novo e mais elevado.

Esta distinção entre karma e fatalismo é libertadora: significa que o sofrimento presente não é inevitável, que o passado não é uma sentença e que cada momento é uma oportunidade genuína de criar algo diferente. O trabalho começa com esta compreensão.

Karma e responsabilidade: o que não é determinismo

Um dos mal-entendidos mais comuns sobre o karma é confundi-lo com determinismo: a ideia de que o que acontece é inevitável, que o destino está traçado, que não há nada a fazer porque tudo já foi decidido pelo karma acumulado.

Esta leitura é fundamentalmente errada, e as próprias tradições que criaram o conceito de karma são explícitas sobre isso. O karma é uma lei de tendências, não de certezas. Cria condições, não decretos. Uma pessoa com karma de dificuldade financeira não está condenada à pobreza: está a trabalhar num desafio específico que tem uma raiz kármica, e as escolhas que faz nesta vida, a consciência que desenvolve, o trabalho espiritual que realiza, podem alterar significativamente a forma como esse karma se manifesta.

O monge budista Sato expressou-o claramente: "Tudo que está acontecendo é resultado das ações que já fizemos, e o que nós faremos em nosso futuro vai depender do que fazemos hoje." Passado e futuro são igualmente reais no karma, mas só o presente está no controlo de cada pessoa.

Esta perspetiva tem uma implicação prática importante: a ideia de que "o que está para ser, será" não é uma expressão de sabedoria kármica. É uma confusão entre aceitação e passividade. A aceitação genuína de que há padrões kármicos em jogo, feita sem resignação nem amargura, é o ponto de partida real para o trabalho de transformação, não o fim desse trabalho.

Como trabalhar o karma no dia a dia

O trabalho kármico não exige grandes rituais nem intervenções extraordinárias. A maior parte da transformação kármica acontece no quotidiano, nas escolhas pequenas que se fazem com consistência ao longo do tempo.

Examinar honestamente os padrões que se repetem na vida e perguntar que papel se joga na sua manutenção. Identificar onde há ressentimento guardado e trabalhar o perdão de forma activa, sabendo que perdoar não é aprovar mas libertar. Praticar acções de generosidade genuína sem expectativa de retribuição. Cultivar a consistência entre o que se pensa, o que se diz e o que se faz, porque o karma é gerado pela intenção tanto quanto pela acção. Estas práticas não resolvem o karma de uma geração anterior num único dia, mas criam uma direcção clara e um impulso que, mantido com consistência, tem um efeito cumulativo que a maioria das pessoas tende a subestimar.

São práticas aparentemente simples na sua descrição e genuinamente exigentes na sua execução. A consistência ao longo do tempo, mesmo quando os resultados não são imediatamente visíveis, é o que cria uma mudança real e duradoura no padrão kármico. O trabalho com os especialistas da plataforma pode oferecer orientação e acompanhamento para quem quer aprofundar este caminho com suporte.

Conclusão

O karma, na sua profundidade real, é uma das ideias mais generosas que a espiritualidade humana produziu. Não porque diga que tudo está bem, mas porque diz que nada é arbitrário e que tudo pode ser transformado. Que as dificuldades têm uma raiz e que essa raiz pode ser trabalhada. Que cada momento é simultaneamente o resultado do passado e a semente do futuro.

Trabalhar o karma não é um ato de submissão ao passado. É uma afirmação de que o presente tem poder suficiente para criar algo diferente do que existiu antes, e de que essa criação começa sempre com a consciência de quem se é e da qualidade das ações que se escolhe fazer.